Thursday, May 26, 2005

Tinta vermelha

Não são projeções em minha sombra. Senão, a luz poderia apagá-las.
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A partir do momento que comecei a contemplar o concreto através das minhas propriedades organolépticas, já evidenciei essa sensação em mim. Dói.

O ciúme não é um sentimento. Deveria ser apenas um infeliz estado de espírito.

Não para mim.

Ele parasita minhas atitudes, conduz meu humor hipocrático. Reconheço seu talento crônico. Não deixa de ser um companheiro. Forte e instável.

Ele seria o melhor bode espiatório para justificar o desmedido. Afinal, não tenho culpa. Nem os outros.

Ele acorda de repente dentro de mim. Condena meus pensamentos com suas inquietações hiperbólicas, assume as rédeas do meu coração e cavalga por cima de qualquer outra manifestação emotiva. Ele dá patadas até humilhar a razão. Não há reflexão, muito menos moral.

Tal ciúme não desperta apenas com o amor desajeitado de um novo adulto. Ele é a distância entre mim e o mundo.
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O rancor são situações que jamais cicatrizarão.

Ele é estático, frio.

Ele atua como força motriz ao inerente ciúme. É o combustível renovável para atear fogo em qualquer situação e carbonizar os envolvidos. Sem dó.

O rancor se justifica por si só. E fica inerte, aguardando qualquer distração para excretar ironias agudas.
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A arrogância é estética. Um mecanismo de defesa superficial.

É uma resposta aos conflitos internos.

Ela protege-se da humilhação; perder o controle significa estar sujeito à apoptoses mentais.

O autocontrole entrega sua gestão à arrogância. Esta molda um semblante de pseudo segurança e permite um superlativo em cada palavra empregada.
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Luz.

A luz não vence. A razão não vence.

Abdico de qualquer maniqueísmo popular ao debater emoção e razão. Seria muito pretencioso dedicar-se somente aos cálculos apolíneos. Com efeito, Dionísio precisa se conter um pouco e permitir a cinética equilibrada do pêndulo caótico. Seu movimento permitiria uma fusão dessas duas cosmovisões, desobstruindo simultaneamente o acesso à razão e à emoção.

Ciúme. Rancor. Arrogância.

Essa trinca obsidiante vai longe. E ainda vai machucar muita gente.