Tuesday, April 19, 2005

"Castelo de areia cor de neve."

(três)
" Três crianças foram encontradas mortas na cama de casal de um pequeno hotel litorâneo abandonado. As duas garotinhas e o menino estavam pelados. Até agora a perícia não obteve nenhuma pista satisfatória que pudesse guiá-los à solução do intrigante caso. "


(3)

Estavam brincando juntos apenas na praia, pois naquele mês a água fica insuportavelmente gelada. Os flocos de neve pareciam não combinar com os grãos de areia. O trio emporcalhado, liderado pelo gordinho que ostentava sua idade superior, subiu as escadas do hotel para tomar banho. Seu Atílio já tinha avisado os traquinas que o quarto 76 não devia ser utilizado. Apesar do estabelecimento estar desértico e conseqüentemente todos os outros aposentos estarem livres, as crianças ignoraram o aviso do velho caseiro e foram se banhar no quarto proibido. Entraram e trancaram a pesada porta. Seus universos puros não possuíam malícia em relação às suas vergonhas. Despiram-se e jogaram suas roupas levemente úmidas de suor no chão. Resolveram pular na cama antes de entrar na água do chuveiro, que parecia mais agressiva que a do mar. Os peraltas esmagavam o lençol amarelado da grande cama e o temperavam com areia. A caçula, excluída do grupo, apoiou-se ocultamente sobre a calefação, enquanto o garoto obeso e sua amiga magrela monopolizavam e destruíam a mola do colchão com saltos ornamentais. Surpreendentemente, a mão da pequenina não queimou com o ferro fervente do aparelho de aquecimento antigo. Quem chegasse por último no banheiro era a mulher do sapo. Ensoparam-se. Gargalhavam e gritavam ao pintar o sete. A água feria de tão gelada. A tríplice foi se secar, mas não havia toalhas. Somente uma cama de casal enfeitava o dormitório 76. Frio. Após o êxtase, os serelepes lembraram do seu Atílio. Correram para a porta. Destrancaram-na, porém não a conseguiam abrir. A mais nova começou a chorar. A do meio secava-se com o velho lençol e se machucava com o atrito da areia em seu corpo. O mais velho tentava fechar a janela, que também estava teimosamente emperrada. Parecia uma reunião fantasmagórica: a pele deles embranquecia cada vez mais, com exceção dos lábios roxos. Berravam o nome do caseiro. Abraçaram-se. O corpo rugoso da garota, que secou-se com a roupa de cama, incomodava a gordura do menino. As lágrimas escorriam pelo corpo deles e esfriavam-no. Concluíram que as roupas úmidas somadas com o lençol molhado não seriam uma calorosa solução. A caçula ficou sonolenta. Na verdade os três foram chamados para o mundo onírico. Deitaram na cama. Choro e sono. O último os acompanhou até a morte. Aos poucos o quarto, assim como a carne das crianças, tornava-se branco. Ao entrar pela janela, a neve perfazia um tapete. Macio e mortal. O trio jazia delicadamente até o caseiro perceber, muitas horas depois, que os pestinhas tinham sumido. Ao encontrá-los, o velhinho sorriu. O aviso fora dado previamente. Retirou o cadeado da trava externa da porta do quarto 76 e guardou no bolso. Continuava sorrindo. O sovino os puniu. Desceu as escadas e andara com dificuldade até o mar. Sem despir-se, mergulhou e nadou em direção ao horizonte. Sorrindo. A hipotermia não teve tempo de vingar a morte das crianças. A grande quantidade de roupa que o idoso trajava mais o inconveniente cadeado, facilitaram o seu afogamento. O corpo do seu Átilio nunca foi achado.


Quarta-feira, dois de junho de 2004 (três e quinze da manhã)