"Minhas Férias"
Ainda estou na Idade da Pedra. Atraso mental latente. A Revolução Musical foi a responsável por essa abrupta conscientização. No meio de tantas tossidas, me sinto um leigo. No meio de tantos miojos, me sinto um aprendiz. No meio de tanta chuva, me sinto um novato. No meio de tantas caminhadas lisérgicas, me sinto um pupilo.
O Indie para o índio. Não faço pouco caso do gentio, apenas consolido minha condição retrógrada, consistentemente obsoleta. Sou da massa. Não tenho leitura suficiente para atenuar as investidas do sistema vigente. O monstruoso mosaico homogêneo (ou massa) não me poupou. Ser da massa é ser feliz. O pop comercial, o cinema hollywoodiano, a literatura cult e os templos hypes paulistanos facilitam a inserção.
O Indie para o índio. Não faço pouco caso do gentio, apenas consolido minha condição retrógrada, consistentemente obsoleta. Sou da massa. Não tenho leitura suficiente para atenuar as investidas do sistema vigente. O monstruoso mosaico homogêneo (ou massa) não me poupou. Ser da massa é ser feliz. O pop comercial, o cinema hollywoodiano, a literatura cult e os templos hypes paulistanos facilitam a inserção.
Massa. Duas décadas e meu ouvido admite seu mau gosto. Confesso que a música eletrônica exerceu um papel fundamental. Consegui uma cadeira capitalista na borda da massa e de vez em quando eu observo as sombras que se materializam fora dela. A manipulação falhou. O techno das baladinhas engomadas me fatigou. Resolvi tirar o uniforme almofadinha e comecei a escutar música eletrônica de fato. Uma definição para tal som, platonismo cristalino, aproximar-se-ia do parnasiano Olavo Bilac: O DJ lima e sofre e sua. É como se lapidássemos onomatopéias.
Felizmente a massa falhou ao permitir um rico contato entre mim e algumas matérias da sombra, que estavam justamente à paisana. Sem atinar absorvi elementos alternativos. Agora enxergo de forma opaca e realizo uma leitura pretensiosa do cenário musical.
A Antigüidade Clássica assuntada de ponta cabeça. Analisar Roma (música eletrônica de qualidade) e somente depois a Grécia (minha ignorância musical). Paul Veyne ficaria orgulhoso. O mais interessante foi a naturalidade do processo - a mais pura gradação.
A partir do momento que nossas cápsulas não possuem mais valor, questionamos a massa. Sou da massa e tal condição me torna infeliz. Paradoxo do capitalismo. Hans sabe que ao apertar o botãozinho vermelho, eles morrerão intoxicados. Eles não têm culpa. Hans aperta o botão e judeus morrem. Porém, se a cápsula de Hans o incomodasse, ele poderia encontrar inúmeras saídas, como tentar fugir da Alemanha nazista.
A partir do momento que nossas cápsulas não possuem mais valor, questionamos a massa. Sou da massa e tal condição me torna infeliz. Paradoxo do capitalismo. Hans sabe que ao apertar o botãozinho vermelho, eles morrerão intoxicados. Eles não têm culpa. Hans aperta o botão e judeus morrem. Porém, se a cápsula de Hans o incomodasse, ele poderia encontrar inúmeras saídas, como tentar fugir da Alemanha nazista.
Como eu posso me levantar da confortável cadeira capitalista, situada na borda do gigantesco mosaico uniforme? Alguns prepotentes pensam que estão de pé ou que saíram da massa. Tolos. Essa ilusão me enoja. Mesmo quando eu conseguir manipular ferramentas de real conscientização, eu ainda estarei na Idade da Pedra. Sou índio e não quero ser catequizado. Sou índio e não quero ser dizimado. Sou índio e não quero ser aculturado. Sou índio e não quero ser massificado.
*Escrito dia 20 de julho de 2004. Muita água caindo do céu. Muitas idéias foram regadas.


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