Reflexão incomum
Entrei no banheiro com ar de debandagem. Minha bexiga implorava pelo escoamento em caráter de urgência. Antes de realizar tal tarefa aliviante, meus olhos esbarraram de relance no espelho. Sem perder tempo, este os encarou. Fiz uma careta. Meu reflexo, sem hesitar, arremedou uma cara monstruosa. Eu fiquei muito invocado e me aproximei daquele objeto singular do meu lavatório. Fixamos a visão odiosamente. Eu não me assustava, porém suas constantes chacotas mescladas com uma indiferença absoluta estavam me solicitando sete anos de azar.
- Eu conheço exatamente cada contorno do seu raciocínio - começou o aparelho óptico.
- Ah é? Pensava que sua mísera função era reproduzir miméticamente as coisas - provoquei.
- É verdade. Essa é minha mísera função. - conformou-se e continuou - Mas tenho a capacidade de ver sua consciência - disse ele com um tom perturbador.
- O que eu estou pensando agora? - desafiei maliciosamente.
- Você está com raiva de morar numa avenida de mão única. - respondeu.
- ... - fiquei sem palavras - Mas por que? - tentei complicar.
- As leis de trânsito lhe obrigaram a fazer uma volta enorme, pegar um congestionamento insuportável, até você conseguir pisar em casa. - descomplicou e acrescentou - E você estava apertado o caminho todo.
Dei um passo para trás, afastando-me de mim mesmo. Bati a batata da perna na privada e lembrei da minha bexiga. Já assustado, me virei, abri o zíper da calça e mirei no vaso. Não consegui fazer xixi. Não estava sozinho no banheiro. Procurei disfarçar, me espiar no espelho, ver se ele distraía. Não adiantava. Fechei o zíper repentinamente, me virei para o chuveiro e liguei a água quente no máximo. O banheiro logo se transformou num universo nebuloso e hostil. Eu anestesiei o espelho com vapor de água condensado. Urinei. Após o alívio orgásmico, desliguei o chuveiro. Sem demorar, o efeito anestésico iria expirar e minha imagem inconveniente desembaçaria. Minhas metáforas mais herméticas estavam sendo lapidadas por mim mesmo. Não queria saber mais. Saí do banheiro e bati a porta, evitando que a névoa vazasse para fora. Queria lacrá-la.
Me dei conta de quem era superficial. Eu.
Segunda-feira, sete de junho de 2004 (cinco e quatro da tarde)


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