Friday, June 10, 2005

autobiográfico

A fila apresentava proporções quilométricas. Todos os meus alteregos pleiteavam a vaga titular nesta inusitada autobiografia. Eles queriam ser laureados com o papel principal. A busca pelo reconhecimento era mordaz.
Todos estavam muito enciumados apenas com a possibilidade de outrem ganhar destaque em meu texto. Não conseguiam suportar o potencial rancor que surgiria, caso não protagonizassem minha descrição.
O cenário era belicoso. Eram muito temperamentais e queriam impor a qualquer custo suas virtudes estéticas e esconder seus vícios condenáveis.
Os alteregos mantinham suas qualidades plásticas dentro de um belo saco, segurado com a mão direita, à frente do corpo. Já os defeitos mais detestáveis estavam armazenados numa sacola encardida, sustentada nas costas pela mão gauche.
Assim, numa fila indiana, os alteregos só conseguiam identificar o defeito um do outro. As críticas eram impiedosas e pouco construtivas. Durante a confusão, o caseiro esbarrou agressivamente no boêmio. Os dois trocaram olhares ácidos e empinaram o nariz da forma mais arrogante possível.
A vaidade dos meus eus paradoxais mesclava-se com um incrível torpor assistencialista que emanava de cada um. Um ecletismo de ideologias, sedentas por uma mudança social. Aquela fila era uma miríade de sistemas contraditórios, que buscavam uma noção de justiça.
Em meio à cizânia, era absolutamente inviável elencar um grupo de alteregos para compor representativamente minha biografia. Impacientes e extremamente ansiosos, eles começaram a tumultuar subversivamente em prol de uma reforma em minha metodologia autobiográfica.
A revolução vingou e tornou essa autobiografia impraticável.

redação para o curso de língua portuguesa do abitur, escrita na madrugada do dia oito de junho de 2004.