Monday, December 26, 2005

né?

"A impressão era que mal haviam passado uns poucos minutos da nossa partida de Belém, e já navegávamos por um obscuro e invisível labirinto de canais barrentos a oeste da ilha de Marajó ­ e vá saber agora a que distância estávamos de lugares com duas dúzias de casas de pintura descascada com os nomes de Curralinho, Baía das Bocas, São Miguel dos Macacos, Ilha dos Guaribas, Melgaço ou Vila Baturité ­ quando, pouco antes da meia-noite, caiu um violento temporal. Ouvimos que o motor foi desligado, e logo percebemos que o barco começou a girar, levado pela correnteza. (...) Éramos uns trezentos passageiros com destino a Macapá, de onde viajaríamos até Oiapoque, a longíngua fábula dos livros de geografia da infância, e a dois passos da Guiana Francesa".

Saturday, December 24, 2005

azimutal

Fazia tempo que eu não abria um presente grande. Especialmente da maneira mais pueril possível: esmigalhando o embrulho.
Um globo-luminária terrestre. Não era tão grande como imaginei. O mapa era feio e distorcido. Nem arrisquei conferir se Timor Leste constava. Fiquei perturbado com as horríveis cores do relevo, que manchavam o mapa inteiro. Os territórios seccionados pela linha do Equador estavam deformados. Esticados. Muito feio.
O meu irmão ganhou um globo-luminária celeste. Faz mais sentido. Nossa ignorância astronômica acerca das constelações obstruía qualquer imperfeição. Até mesmo o meu insuportável perfeccionismo não contaminaria aquela linda esfera azul.
Reclamei.
Mimado. Corrosivo. Queria ir na loja trocar por outra coisa.
Os olhos maternos, embaçados de lágrimas, disseram: "Para seu irmão eu dei as estrelas, e para você o mundo."

Saturday, December 17, 2005

Não existe Goethe Institut na Guiana Inglesa. Nem no Suriname. Muito menos na Guiana Francesa.

http://www.goethe.de/ins/wwt/sta/deindex.htm

Monday, December 12, 2005

Refratária

Puxou com força meu cabelo para baixo. Sem hesitar, quebrei minha lancheira na testa dele. Saí correndo. Longe da escola. Meu coração batia forte. Não queria que me machucassem. Já estava estilhaçado por dentro. A mão dele poderia me ferir tanto quanto as palavras? Eu podia correr. Meu ouvido não.

Ajoelhei e rezei fervorosamente. Puxava minhas orelhas com força desmedida, tentando destacá-las. Vermelhas. "Tão falando sobre você." Esquenta-me.

Acho que fiquei um pouco careca por causa disso. Depois que a fadinha mercenária buscou meu dente, o meu travesseiro me contou tudo.