Tuesday, September 27, 2005

Aliás

Saí correndo em busca do dedal. Eu nunca entendia as instruções da minha avó e sempre me perdia nas gavetas perfumadas com naftalina. Os ossos dela já não sustentavam-na com tanta destreza e se um dia ela trupicasse, quiçá nunca os calcificaria. Então eu fui escalado para atravessar a hégira do corredor e alcançar o quarto dela.

As paredes eram brancas e forradas com imagens mil. Duas santas, um espelho, um Jesus e uma imagem de São Sebastião mirando a Ilhabela. Sebastião de mar, não de milagres. Eu enxergava o quarto verde musgo. Musgo do passado de plantas, aquelas espalhadas pelo imenso jardim que esparramava-se em volta da arquitetura caixa-de-sapatos cinqüentista.

A casa da vovó é uma caixa-de-sapatos. E a vovó colecionou caixas por muitos anos. Caixas variadas. Madeira, marfim, papel bonito e tal. Eram caixas. E encaixavam-se. Uma embalagem de fermento royal. Tudo embalado herméticamente, aprisionando o tempo e a nostalgia de uma época onde haviam onças e tatu-bola pelo quintal.

Na realidade, a vovó não me pediu dedal algum. Ela pedia. Agora não coze. E nem cozinha. É que o vovô foi para o céu e abandonou o universo dela. Uma função simples de primeiro grau, relacionando uma incógnita com outra. Uma reta até o infinito.

(...)

A cozinha de azulejo azul-claro. A deliciosa despensa proibida. A imensa área de serviço era minha pista de patins. A vovó apostava na possibilidade de um dia eu me decapitar com o varal. Tem a lavanderia, que hoje é sinônimo de comida congelada e outras pós-modernices.

Cadeira cativa era uma constante ameaça - horas e horas de castigos mal-criados sem fim. A salinha de televisão e de inumeráveis partidas de buraco, onde a mesinha estava à espera do barão chegar. O banheiro negro. Menino não faz xixi fora da privada!

O imenso corredor escorregadio, bordado por armários mágicos e portas secretas. Eu brincava de blocos lá e patinava no gelo também. O quarto abandonado, que depois serviu de campo de refugiados para os filhos desquitados da vovó. O quarto do meio remete aos anos oitenta, depósitos de flyers do madame satã e de coturnos que não cabem no meu pé 43. O último quarto já foi habitado por mim. Tem um fantasma lá, mas ninguém sabe.

A imensa sala. Sala recheada de artefatos portugueses importados da casa de Espinho pós-mortem do meu avô. Tem uma mesa comprida, abarcava todas as discussões de uma família burguesa temperamental e ordinária. O escritório presenciava longas conversas sobre os Lusíadas, sobre Enologia, sobre como usar o mouse, sobre as voltas pelo globo e de como eu iria me tornar um jornalista de sucesso. Correspondente internacional. O vovô nasceu em Espinho. Ele era espinhento mesmo.

Após a queda do meu avô, a adega foi saqueada diversas vezes. Vinhos e mais vinhos. Eu e meus comparças não perdoávamos um. Culpa. O salão era dominical. Churrasqueira e piscina: berço d´ouro. Tudo colorido pelas plantas outrora mencionadas. Esse salão foi palco de divertidas festas. Aquelas estripulias de adolescentes que um dia seriam novos adultos.

Daí a casona ficou vazia porque a vovó foi procurar um sentido. Contratos e mais contratos, simplificações eqüitativas de uma partilha bélica. A vó quer ver o vovô também. Ele pode ter se escondido em algum castelo lusitano. Ele era espinhento.
Então ela foi viajar mais uma vez. Mas volta. Acredito que ela volte.

Monday, September 12, 2005

Noruega

Foi logo depois da minha grande descoberta: a Santo Amaro deságua na João Dias.
Sábado à tarde. Queria chegar até o centro. Não sou fanático por churrasco, mas o réquiem da véspera do aniversário das gêmeas ecoava nos meus ouvidos. Carne sangrenta.
E eu levei um murro como se não houvesse amarelo entre o verde e o vermelho. Uma felicidade atormentou meu corpo. Não era alegria. Tudo muito leve e imperdoável. Não conseguia disfarçar - meu sorriso era constante. Bonito. Um homem sorrindo. Eu não reconheci tristeza alguma dentro de mim.
O ovo. O ovo da Clarice.
E sorri. Sem vírgulas.
Ofegante. Tentei anestesiar essa felicidade insuportável.
Porque tudo de repente valeu a pena. Eu ia para o centro.

Saturday, September 03, 2005

Eu estou gordo.