Aliás
Saí correndo em busca do dedal. Eu nunca entendia as instruções da minha avó e sempre me perdia nas gavetas perfumadas com naftalina. Os ossos dela já não sustentavam-na com tanta destreza e se um dia ela trupicasse, quiçá nunca os calcificaria. Então eu fui escalado para atravessar a hégira do corredor e alcançar o quarto dela.
As paredes eram brancas e forradas com imagens mil. Duas santas, um espelho, um Jesus e uma imagem de São Sebastião mirando a Ilhabela. Sebastião de mar, não de milagres. Eu enxergava o quarto verde musgo. Musgo do passado de plantas, aquelas espalhadas pelo imenso jardim que esparramava-se em volta da arquitetura caixa-de-sapatos cinqüentista.
A casa da vovó é uma caixa-de-sapatos. E a vovó colecionou caixas por muitos anos. Caixas variadas. Madeira, marfim, papel bonito e tal. Eram caixas. E encaixavam-se. Uma embalagem de fermento royal. Tudo embalado herméticamente, aprisionando o tempo e a nostalgia de uma época onde haviam onças e tatu-bola pelo quintal.
Na realidade, a vovó não me pediu dedal algum. Ela pedia. Agora não coze. E nem cozinha. É que o vovô foi para o céu e abandonou o universo dela. Uma função simples de primeiro grau, relacionando uma incógnita com outra. Uma reta até o infinito.
(...)
A cozinha de azulejo azul-claro. A deliciosa despensa proibida. A imensa área de serviço era minha pista de patins. A vovó apostava na possibilidade de um dia eu me decapitar com o varal. Tem a lavanderia, que hoje é sinônimo de comida congelada e outras pós-modernices.
Cadeira cativa era uma constante ameaça - horas e horas de castigos mal-criados sem fim. A salinha de televisão e de inumeráveis partidas de buraco, onde a mesinha estava à espera do barão chegar. O banheiro negro. Menino não faz xixi fora da privada!
O imenso corredor escorregadio, bordado por armários mágicos e portas secretas. Eu brincava de blocos lá e patinava no gelo também. O quarto abandonado, que depois serviu de campo de refugiados para os filhos desquitados da vovó. O quarto do meio remete aos anos oitenta, depósitos de flyers do madame satã e de coturnos que não cabem no meu pé 43. O último quarto já foi habitado por mim. Tem um fantasma lá, mas ninguém sabe.
A imensa sala. Sala recheada de artefatos portugueses importados da casa de Espinho pós-mortem do meu avô. Tem uma mesa comprida, abarcava todas as discussões de uma família burguesa temperamental e ordinária. O escritório presenciava longas conversas sobre os Lusíadas, sobre Enologia, sobre como usar o mouse, sobre as voltas pelo globo e de como eu iria me tornar um jornalista de sucesso. Correspondente internacional. O vovô nasceu em Espinho. Ele era espinhento mesmo.
Após a queda do meu avô, a adega foi saqueada diversas vezes. Vinhos e mais vinhos. Eu e meus comparças não perdoávamos um. Culpa. O salão era dominical. Churrasqueira e piscina: berço d´ouro. Tudo colorido pelas plantas outrora mencionadas. Esse salão foi palco de divertidas festas. Aquelas estripulias de adolescentes que um dia seriam novos adultos.
Daí a casona ficou vazia porque a vovó foi procurar um sentido. Contratos e mais contratos, simplificações eqüitativas de uma partilha bélica. A vó quer ver o vovô também. Ele pode ter se escondido em algum castelo lusitano. Ele era espinhento.
As paredes eram brancas e forradas com imagens mil. Duas santas, um espelho, um Jesus e uma imagem de São Sebastião mirando a Ilhabela. Sebastião de mar, não de milagres. Eu enxergava o quarto verde musgo. Musgo do passado de plantas, aquelas espalhadas pelo imenso jardim que esparramava-se em volta da arquitetura caixa-de-sapatos cinqüentista.
A casa da vovó é uma caixa-de-sapatos. E a vovó colecionou caixas por muitos anos. Caixas variadas. Madeira, marfim, papel bonito e tal. Eram caixas. E encaixavam-se. Uma embalagem de fermento royal. Tudo embalado herméticamente, aprisionando o tempo e a nostalgia de uma época onde haviam onças e tatu-bola pelo quintal.
Na realidade, a vovó não me pediu dedal algum. Ela pedia. Agora não coze. E nem cozinha. É que o vovô foi para o céu e abandonou o universo dela. Uma função simples de primeiro grau, relacionando uma incógnita com outra. Uma reta até o infinito.
(...)
A cozinha de azulejo azul-claro. A deliciosa despensa proibida. A imensa área de serviço era minha pista de patins. A vovó apostava na possibilidade de um dia eu me decapitar com o varal. Tem a lavanderia, que hoje é sinônimo de comida congelada e outras pós-modernices.
Cadeira cativa era uma constante ameaça - horas e horas de castigos mal-criados sem fim. A salinha de televisão e de inumeráveis partidas de buraco, onde a mesinha estava à espera do barão chegar. O banheiro negro. Menino não faz xixi fora da privada!
O imenso corredor escorregadio, bordado por armários mágicos e portas secretas. Eu brincava de blocos lá e patinava no gelo também. O quarto abandonado, que depois serviu de campo de refugiados para os filhos desquitados da vovó. O quarto do meio remete aos anos oitenta, depósitos de flyers do madame satã e de coturnos que não cabem no meu pé 43. O último quarto já foi habitado por mim. Tem um fantasma lá, mas ninguém sabe.
A imensa sala. Sala recheada de artefatos portugueses importados da casa de Espinho pós-mortem do meu avô. Tem uma mesa comprida, abarcava todas as discussões de uma família burguesa temperamental e ordinária. O escritório presenciava longas conversas sobre os Lusíadas, sobre Enologia, sobre como usar o mouse, sobre as voltas pelo globo e de como eu iria me tornar um jornalista de sucesso. Correspondente internacional. O vovô nasceu em Espinho. Ele era espinhento mesmo.
Após a queda do meu avô, a adega foi saqueada diversas vezes. Vinhos e mais vinhos. Eu e meus comparças não perdoávamos um. Culpa. O salão era dominical. Churrasqueira e piscina: berço d´ouro. Tudo colorido pelas plantas outrora mencionadas. Esse salão foi palco de divertidas festas. Aquelas estripulias de adolescentes que um dia seriam novos adultos.
Daí a casona ficou vazia porque a vovó foi procurar um sentido. Contratos e mais contratos, simplificações eqüitativas de uma partilha bélica. A vó quer ver o vovô também. Ele pode ter se escondido em algum castelo lusitano. Ele era espinhento.
Então ela foi viajar mais uma vez. Mas volta. Acredito que ela volte.

