Wednesday, August 24, 2005

Ladeira

Até os meninos de rolemã me ignoravam.

Isso até descobrirem que apesar do meu formato geóico, eu morava num cume. Era a casa mais alta e mais velha da cidade. A minha janela contemplava os belos muros medievais que a história construiu em volta do burgo. Dava para ver o contorno da cidade inteira. Eu também tinha um muro. Meu muro era de gordura.

Mamãe falava que os vizinhos eram meros vilões ou no máximo aspirantes à nobreza de toga. Embora não houvesse muitos sintomas nobiliárquicos em meu sangue, eu me convencia disso tentando caber no espelho. Pois de um castelo derivou-se meu quarto. Uma princesa pulguenta poderia ter habitado meu aposento. Meu hipotiroidismo impedia o desaparecimento do meu tecido adiposo. E eu subia. Subia.

Eu era muito inteligente. Gorducho e inteligente. Uma rodela pensante, como uma polia. Desprezível como uma polia de um abstrato exercício de física clássica. Vou ser rico e suo bastante também. Porque sói a riqueza de um nobre.

Meu papai cuidava do jardim. Mas o jardim sempre foi feio, já que papai veio para a vida e subiu muito rápido. Minha mamãe falava que papai tinha salvado a vida dela. E tinha esquecido de salvar a dele.

Eu queria urinar litros sem fim e afogar todas as casas da minha cidade. Tomo muita água para um dia morar numa ilha de mijo. Ver todos morrendo sufocados com o meu xixi. Na minha barriga deve caber muito líquido.

Os meninos de rolemã não afanam mais meu lanchinho amanhecido. Eles descem a subida. E eu subo. Subo.

Saturday, August 20, 2005

v
e
r
t
i
c
a
l

Sunday, August 14, 2005

(entre parenthèses)

E eu resolvi intencionalmente tomar um café no aeroporto, assistindo meu coração angustiado e aos aviões decolarem. Ela aceitou o abusivo convite, porque o amor dela é bonito. Era urgente. Alguns coadjuvantes iam embarcar para a Alemanha e morar lá por um sempre passional e a placa do meu carro (DNS 7766) não estava apta a circular pela urbe.
Lá pelos trinta minutos atravessados das duas da tarde do décimo dia do oitavo mês do ano, o carro dela estava no meu portão verde, ansioso por mim. Corremos. Ela nem conhecia os coadjuvantes, mas mesmo assim me transportava até o aeroporto internacional de Guarulhos.
Ao longo do percurso, ela me perguntou jocosamente: "E aí? Vamos para o Rio?" Olhei seriamente nos olhos dela e sorri: "Vamos." Ela hesitou um pouco e abriu aquele contorno nos lábios, escondendo uma ansiedade atrás dos seus vinte anos. O aeroporto foi palco de uma angustiante despedida protocolar. O meu alterego germânico foi chorar no banheiro. E voltou.
Saímos do aeroporto e miramos o veículo rumo ao Rio.
(Rio)
Eu tinha trinta e seis reais. Não paguei gasolina. Não paguei pedágio. Não paguei hospedagem. Não paguei alimentação alguma, nem a lula à doré em copacabana. Não paguei meu chopp. Não paguei minha cueca. Não paguei meu soro para lavar o nariz, muito menos os comprimidos para minha gripe. Não paguei a pizza com o Pedroca. Não paguei a Casa da Matriz. Não paguei.
Esse hiato carioca durou dois dias. Ela me proporcionou. Proporção.
Ela sorri e desestabiliza meu mal-estar. Este está consumindo minhas capacidades diariamente. Meu pai, minha mamãe, o condado. O bloqueio finaceiro. Quando minha situação econômica normalizar, quero retribuir. Eu vou retribuir.
Mas o amor é bonito.
Os meus amigos estão me financiando. Não sustentando. Eles sabem que o amor é bonito.
Já fiz isso. Hoje eu sou feito.

Tuesday, August 09, 2005

cliché

Je m´appelle
Tu t´ appelles
Il / Elle s´appelle
Nous nous appelons
Vous vous appelez
Ils / Elles s´appellent
.
.
.
Não vou ficar me galiciando não, mas minha professora de francês é linda.

Wednesday, August 03, 2005

Foi ficando envelhecido de vaidade.
Mas não sejam tolos: não enrugou de vaidade pó-de-arroz, foi de vaidade caprichosa mesmo. Aquele orgulho inexplicável, um tanto quanto gratuito.
Mudei a cama de lugar. Tinha um vento frio consumindo minha saúde todas as madrugadas. Isso aconteceu desde o acidente que levou minha mãe e meu irmão embora. Ele também colocou meu pai num aquário. Meu pai é um peixe.