Ladeira
Até os meninos de rolemã me ignoravam.
Isso até descobrirem que apesar do meu formato geóico, eu morava num cume. Era a casa mais alta e mais velha da cidade. A minha janela contemplava os belos muros medievais que a história construiu em volta do burgo. Dava para ver o contorno da cidade inteira. Eu também tinha um muro. Meu muro era de gordura.
Mamãe falava que os vizinhos eram meros vilões ou no máximo aspirantes à nobreza de toga. Embora não houvesse muitos sintomas nobiliárquicos em meu sangue, eu me convencia disso tentando caber no espelho. Pois de um castelo derivou-se meu quarto. Uma princesa pulguenta poderia ter habitado meu aposento. Meu hipotiroidismo impedia o desaparecimento do meu tecido adiposo. E eu subia. Subia.
Eu era muito inteligente. Gorducho e inteligente. Uma rodela pensante, como uma polia. Desprezível como uma polia de um abstrato exercício de física clássica. Vou ser rico e suo bastante também. Porque sói a riqueza de um nobre.
Meu papai cuidava do jardim. Mas o jardim sempre foi feio, já que papai veio para a vida e subiu muito rápido. Minha mamãe falava que papai tinha salvado a vida dela. E tinha esquecido de salvar a dele.
Eu queria urinar litros sem fim e afogar todas as casas da minha cidade. Tomo muita água para um dia morar numa ilha de mijo. Ver todos morrendo sufocados com o meu xixi. Na minha barriga deve caber muito líquido.
Os meninos de rolemã não afanam mais meu lanchinho amanhecido. Eles descem a subida. E eu subo. Subo.

