Sunday, June 26, 2005

A Duquesa resolveu transar com o Príncipe. E no inverno de 1994, quando eu estava na quarta série, a Maria Alpha apareceu dentro de uma casinha enferrujada, lá no quintal do Vicente. Meus pais vetaram a possível permanência de uma fêmea no terreno. Fiquei triste, mas como todo filhotinho é gracioso, resolvi presentear a Mariana Klein. Eu entregaria Maria Alpha nas mãos da menina que minha inocência pueril amava. Lógico que os meus utópicos sogros não aceitaram meu mimo apaixonado. No fim das contas, eu me encantei por aquele animalzinho malhado.
É. Mas no começo ela se chamava Princesa, fazendo jus ao seu sangue azul vira-lata. O machismo do meu pai rebatizou minha cadelinha. Alpha. Mais para frente, ao ganhar uma relativa autonomia, eu adicionei o nome Maria. Afinal, ela não era qualquer Alpha.
Crescemos juntos. Falava para todos que eu iria casar com ela. A Marie acompanhou minha infância, minha puberdade, minha adolescência e minha nova adultice.
Todos os dias. Ela era nervosinha. Como todo tampinha é.
Cortaram o eucalipto que ameaçava minha casa. Sobrou um tronco bonito. Um memorial. A Mariazinha subia habilidosamente no tronco e fazia pose. Queria amor.
Um dia nasceram várias criaturas. A Alpha era independente, pariu um por um sozinha e separou os cadáveres dos que não vingaram. O Vicente falou que na verdade ela tinha comido os bêbes mortos, mas eu não acreditei. Hoje acredito.
Nada assustava minha amiga, exceto o ruído daquelas luzes em dia de chuva ou aquelas espocadas celestes em dia de bola. Tudo desculpa para ficar dentro de casa.
Ela viu muitos irem embora: o Nitro, o Chico, o Bruce, o Duque, o Bubby, os mimis dela (Três-pintas, Chun-li, Kamus, Bonifácio, Raquel e o Pequeno).
Até mesmo ela tentou nos deixar uma vez... mas ela viu que a vida lá fora não era fácil e resolveu voltar. Teve o dia que o seu Geraldo viu um homem tentar roubá-la de mim. O seu Geraldo deu uma pancada com uma pá na cabeça do malandro. Chegaram a roubar. Seu Vicente viu a minha amiga presa por uma guia improvisada, fio de pipa, lá numa várzea. O caseiro ficou muito irritado, xingou o ladrão e resgatou uma parte do meu coração.
Essa parte do meu coração foi embora. O que mais me machuca é que não foi ela quem me deixou. Eu abandonei. Dois meses sem vê-la direito. Sem aquela regularidade aconchegante. O caos familiar, as mudanças. Mudança.
Não me dei conta. O quanto eu estava perdendo. O quanto eu perdi.
Fiquei sabendo ontem à noite que ela morreu. Minha avó me contou com uma naturalidade angustiante. Fazia uns dez dias já. O que são dez dias? Minhas lágrimas se conteram. Eu praticamente abandonei uma parte do meu coração.
Ela estava meio mal por causa das constantes brigas com a Maria da Lua. Cheguei a levá-la ao veterinário algumas vezes... Foi pouco. Fiz pouco. Ausência. Era um ser que me amava tanto.
O Condado tinha mudado muito. Meu avô. Minha casa. Meu quarto. Meus pais. Meus poemas jogados num almoxarifado improvisado. Cacos da minha memória. Uma infância estuprada por uma seqüência de acontecimentos extremamente tristes.
Não consigo colar esses cacos e remontar uma lembrança bonita. Tudo dói muito.
Vi minha vó hoje. Ela sente falta do vovô. E de mim também. Reconheci um abandono decadente por minha parte. Ela me ama.
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Existe uma bela história dentro de mim. Mas a tristeza me deixou mudo e não consigo contá-la para vocês.

Saturday, June 25, 2005

dañame

Sempre tive medo de mudanças. Mudanças em geral. A instabilidade que elas carregam consigo podiam convulsionar toda uma ordem intocável estabelecida por mim. Mimado. Qualquer incerteza já era motivo para grandes histerias. Nunca me perguntei o por quê desse descontrole.
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Afinal: por que?
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Eu esqueço que também estou em movimento. Todos nós estamos em movimento. Cada um com sua velocidade.
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Rasgando espectativas da forma mais lépida e efêmera, como um bólido. Nunca me dei conta disso. Minha vida também não quer se fixar num padrão estandarte. Afogando sonhos impiedosamente dentro de um rio caudaloso e sazonal.
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]eu sou uma eterna transição entre dois períodos indeterminados[
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Não posso implorar por uma estaticidade contagiosa e egoísta.
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Certas coisas não fazem mais sentido para mim. E se um dia eu já pedi desculpa, não foi à toa.
Hacer que un cuerpo deje el lugar o espacio que ocupa para ocupar otro. Modificar el rumbo de una cosa. Desviar una cosa de su dirección habitual. Mover violentamente contra el orden natura. Cambiar la esencia o forma de una cosa. Perturbar. Trastornar. Estropear. Dañar, descomponer. Dar o tomar una cosa por otra. Mudarlternar. Virar, modificar la dirección. En los automóviles, pasar de una velocidad a otra. Mudarse de ropa. Mudarse de casa. Transformar o cambiar una cosa mudando algunos sus caracteres. Hacer cambiar de figura a una persona o cosa. Transmutar una cosa en otra. Cambiar el estado de algo.

Sunday, June 19, 2005

Há uma questão de mim sendo feita por pessoas que querem me ver realmente feliz.

Elas não me machucam. Nem sem querer.

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Pop tart must decide.

Thursday, June 16, 2005

violência

Wednesday, June 15, 2005

FIM

Sunday, June 12, 2005

In a dream / We are conected / Siamese twins / At the wrist / And I knew we´d been forsaken / Expelled from paradise / I can´t believe them / When they say that it´s all right

(there are boa constrictors everywhere I step)
Quer namorar comigo?

Dancing with myself in such a beautiful valentine´s day.

Friday, June 10, 2005

autobiográfico

A fila apresentava proporções quilométricas. Todos os meus alteregos pleiteavam a vaga titular nesta inusitada autobiografia. Eles queriam ser laureados com o papel principal. A busca pelo reconhecimento era mordaz.
Todos estavam muito enciumados apenas com a possibilidade de outrem ganhar destaque em meu texto. Não conseguiam suportar o potencial rancor que surgiria, caso não protagonizassem minha descrição.
O cenário era belicoso. Eram muito temperamentais e queriam impor a qualquer custo suas virtudes estéticas e esconder seus vícios condenáveis.
Os alteregos mantinham suas qualidades plásticas dentro de um belo saco, segurado com a mão direita, à frente do corpo. Já os defeitos mais detestáveis estavam armazenados numa sacola encardida, sustentada nas costas pela mão gauche.
Assim, numa fila indiana, os alteregos só conseguiam identificar o defeito um do outro. As críticas eram impiedosas e pouco construtivas. Durante a confusão, o caseiro esbarrou agressivamente no boêmio. Os dois trocaram olhares ácidos e empinaram o nariz da forma mais arrogante possível.
A vaidade dos meus eus paradoxais mesclava-se com um incrível torpor assistencialista que emanava de cada um. Um ecletismo de ideologias, sedentas por uma mudança social. Aquela fila era uma miríade de sistemas contraditórios, que buscavam uma noção de justiça.
Em meio à cizânia, era absolutamente inviável elencar um grupo de alteregos para compor representativamente minha biografia. Impacientes e extremamente ansiosos, eles começaram a tumultuar subversivamente em prol de uma reforma em minha metodologia autobiográfica.
A revolução vingou e tornou essa autobiografia impraticável.

redação para o curso de língua portuguesa do abitur, escrita na madrugada do dia oito de junho de 2004.

Monday, June 06, 2005

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Sunday, June 05, 2005

Life goes on...

***AVISO***

Aos que planejam em breve conhecer tal vil e abjeta criatura, deixo um conselho silencioso aqui postado. E aos que não planejam também, pois o que geralmente acontece é que o supracitado o invade, de forma lenta porém inexorável. O Sr. Wright é intenso. Tão intenso que machuca, e quando digo isso, eu falo sério; não tentem qualquer aproximação se sentirem que não vão agüentar. Aos que agüentam, conseguem para si um companheiro que vai além de ser bom ou mal, simpático ou um traste: desistam destes maniqueísmos ao lidar com o Sr. Wright. Desistam também de enxergar sua vida como era antes; se o monstro já se instalou com seus cachorros e seu alemão e seus pesadelos (e alienígenas) e suas gírias e seu Condado e suas camisetas pequeninas pequeninas e seu sorriso e sua barriga gorducha, não espere nada menos do que um pouco de freak-show horror agridoce em doses diárias inconstantes.
Aos que não conseguem digerir, apenas aproveitem o show, riam um pouco e se divirtam. A festa está só começando.
Escrito por Gustavo Bianezzi Cilia no dia vinte e sete de julho de dois mil e quatro.