A Duquesa resolveu transar com o Príncipe. E no inverno de 1994, quando eu estava na quarta série, a Maria Alpha apareceu dentro de uma casinha enferrujada, lá no quintal do Vicente. Meus pais vetaram a possível permanência de uma fêmea no terreno. Fiquei triste, mas como todo filhotinho é gracioso, resolvi presentear a Mariana Klein. Eu entregaria Maria Alpha nas mãos da menina que minha inocência pueril amava. Lógico que os meus utópicos sogros não aceitaram meu mimo apaixonado. No fim das contas, eu me encantei por aquele animalzinho malhado.
É. Mas no começo ela se chamava Princesa, fazendo jus ao seu sangue azul vira-lata. O machismo do meu pai rebatizou minha cadelinha. Alpha. Mais para frente, ao ganhar uma relativa autonomia, eu adicionei o nome Maria. Afinal, ela não era qualquer Alpha.
Crescemos juntos. Falava para todos que eu iria casar com ela. A Marie acompanhou minha infância, minha puberdade, minha adolescência e minha nova adultice.
Todos os dias. Ela era nervosinha. Como todo tampinha é.
Cortaram o eucalipto que ameaçava minha casa. Sobrou um tronco bonito. Um memorial. A Mariazinha subia habilidosamente no tronco e fazia pose. Queria amor.
Um dia nasceram várias criaturas. A Alpha era independente, pariu um por um sozinha e separou os cadáveres dos que não vingaram. O Vicente falou que na verdade ela tinha comido os bêbes mortos, mas eu não acreditei. Hoje acredito.
Nada assustava minha amiga, exceto o ruído daquelas luzes em dia de chuva ou aquelas espocadas celestes em dia de bola. Tudo desculpa para ficar dentro de casa.
Ela viu muitos irem embora: o Nitro, o Chico, o Bruce, o Duque, o Bubby, os mimis dela (Três-pintas, Chun-li, Kamus, Bonifácio, Raquel e o Pequeno).
Até mesmo ela tentou nos deixar uma vez... mas ela viu que a vida lá fora não era fácil e resolveu voltar. Teve o dia que o seu Geraldo viu um homem tentar roubá-la de mim. O seu Geraldo deu uma pancada com uma pá na cabeça do malandro. Chegaram a roubar. Seu Vicente viu a minha amiga presa por uma guia improvisada, fio de pipa, lá numa várzea. O caseiro ficou muito irritado, xingou o ladrão e resgatou uma parte do meu coração.
Essa parte do meu coração foi embora. O que mais me machuca é que não foi ela quem me deixou. Eu abandonei. Dois meses sem vê-la direito. Sem aquela regularidade aconchegante. O caos familiar, as mudanças. Mudança.
Não me dei conta. O quanto eu estava perdendo. O quanto eu perdi.
Fiquei sabendo ontem à noite que ela morreu. Minha avó me contou com uma naturalidade angustiante. Fazia uns dez dias já. O que são dez dias? Minhas lágrimas se conteram. Eu praticamente abandonei uma parte do meu coração.
Ela estava meio mal por causa das constantes brigas com a Maria da Lua. Cheguei a levá-la ao veterinário algumas vezes... Foi pouco. Fiz pouco. Ausência. Era um ser que me amava tanto.
O Condado tinha mudado muito. Meu avô. Minha casa. Meu quarto. Meus pais. Meus poemas jogados num almoxarifado improvisado. Cacos da minha memória. Uma infância estuprada por uma seqüência de acontecimentos extremamente tristes.
Não consigo colar esses cacos e remontar uma lembrança bonita. Tudo dói muito.
Vi minha vó hoje. Ela sente falta do vovô. E de mim também. Reconheci um abandono decadente por minha parte. Ela me ama.
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Existe uma bela história dentro de mim. Mas a tristeza me deixou mudo e não consigo contá-la para vocês.

