Saturday, May 28, 2005

Estado

Obrigado Estado...
Pela segurança que adiquiri por meio de coerções morais e físicas. Pelos meus direitos jurídicos, afinal sou um cidadão. Pela manutenção da minha propriedade privada. Pela minha participação decisiva no processo político através do meu voto. Pela minha inexorável nacionalidade. Pela garantia do retorno social ao pagar meus impostos. Graças a tua flexibilidade capitalista posso praticar usura. Pelo teu caráter assistencialista que me insipira. Pela liberdade que me concedes. Tudo vai dar certo.
À todos vocês que não se importam com esse papo bobo de política: "Bem-vindos ao momento Elma Chips - salvação eterna."
Escrito no dia doze de março de dois mil e cinco.
Um libertário sem leitura relevante, um pós-moderno nostálgico, um niilista otimista, um paradoxo coeso, um Estado sem manutenção da idéia tácita de dominação.

Friday, May 27, 2005

Neopanspermismo

Preciso resgatar meus rabiscos apoteóticos sobre a origem do universo.

Thursday, May 26, 2005

Tinta vermelha

Não são projeções em minha sombra. Senão, a luz poderia apagá-las.
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A partir do momento que comecei a contemplar o concreto através das minhas propriedades organolépticas, já evidenciei essa sensação em mim. Dói.

O ciúme não é um sentimento. Deveria ser apenas um infeliz estado de espírito.

Não para mim.

Ele parasita minhas atitudes, conduz meu humor hipocrático. Reconheço seu talento crônico. Não deixa de ser um companheiro. Forte e instável.

Ele seria o melhor bode espiatório para justificar o desmedido. Afinal, não tenho culpa. Nem os outros.

Ele acorda de repente dentro de mim. Condena meus pensamentos com suas inquietações hiperbólicas, assume as rédeas do meu coração e cavalga por cima de qualquer outra manifestação emotiva. Ele dá patadas até humilhar a razão. Não há reflexão, muito menos moral.

Tal ciúme não desperta apenas com o amor desajeitado de um novo adulto. Ele é a distância entre mim e o mundo.
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O rancor são situações que jamais cicatrizarão.

Ele é estático, frio.

Ele atua como força motriz ao inerente ciúme. É o combustível renovável para atear fogo em qualquer situação e carbonizar os envolvidos. Sem dó.

O rancor se justifica por si só. E fica inerte, aguardando qualquer distração para excretar ironias agudas.
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A arrogância é estética. Um mecanismo de defesa superficial.

É uma resposta aos conflitos internos.

Ela protege-se da humilhação; perder o controle significa estar sujeito à apoptoses mentais.

O autocontrole entrega sua gestão à arrogância. Esta molda um semblante de pseudo segurança e permite um superlativo em cada palavra empregada.
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Luz.

A luz não vence. A razão não vence.

Abdico de qualquer maniqueísmo popular ao debater emoção e razão. Seria muito pretencioso dedicar-se somente aos cálculos apolíneos. Com efeito, Dionísio precisa se conter um pouco e permitir a cinética equilibrada do pêndulo caótico. Seu movimento permitiria uma fusão dessas duas cosmovisões, desobstruindo simultaneamente o acesso à razão e à emoção.

Ciúme. Rancor. Arrogância.

Essa trinca obsidiante vai longe. E ainda vai machucar muita gente.

Friday, May 20, 2005

Guerra

"Aquilo que você viu não era pólvora, seu fofo."

Wednesday, May 18, 2005

Os Três Mal-Amados

Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

Monday, May 16, 2005

Caro amigo caro

Tristeza não tem fim.
Nem começo.

Vi você passar,
Olhei teu rosto,
Desfilei tuas capacidades
Ao carregar teu coração.

Não esqueço.

Sorri de volta para mim.
Encouracei-me comigo mesmo.
Corri de tudo
E tropecei em você.

Não mereço.

Felicidade não tinha fim.
Nem começo.

Monday, May 02, 2005

Liebensraumpolitik

Certamente a culpa não é dos neocoadjuvantes.
Eles temperam todo o sadismo da peça com momentos jocosos, levemente hilariantes. Quando o teor melancólico do espetáculo me faz chorar, lembro deles e dedico pelo menos uma lágrima à aptidão deles de rabiscar um sorriso no meu rosto da maneira mais prosaica possível. Os aplausos nunca virão. Certamente. Talvez eles nunca recebam o tão odioso papel principal. Mas sempre estarão ao meu lado. Nesse incrível freak show de horror agridoce.

Sunday, May 01, 2005

"Minhas Férias"

Ainda estou na Idade da Pedra. Atraso mental latente. A Revolução Musical foi a responsável por essa abrupta conscientização. No meio de tantas tossidas, me sinto um leigo. No meio de tantos miojos, me sinto um aprendiz. No meio de tanta chuva, me sinto um novato. No meio de tantas caminhadas lisérgicas, me sinto um pupilo.
O Indie para o índio. Não faço pouco caso do gentio, apenas consolido minha condição retrógrada, consistentemente obsoleta. Sou da massa. Não tenho leitura suficiente para atenuar as investidas do sistema vigente. O monstruoso mosaico homogêneo (ou massa) não me poupou. Ser da massa é ser feliz. O pop comercial, o cinema hollywoodiano, a literatura cult e os templos hypes paulistanos facilitam a inserção.
Massa. Duas décadas e meu ouvido admite seu mau gosto. Confesso que a música eletrônica exerceu um papel fundamental. Consegui uma cadeira capitalista na borda da massa e de vez em quando eu observo as sombras que se materializam fora dela. A manipulação falhou. O techno das baladinhas engomadas me fatigou. Resolvi tirar o uniforme almofadinha e comecei a escutar música eletrônica de fato. Uma definição para tal som, platonismo cristalino, aproximar-se-ia do parnasiano Olavo Bilac: O DJ lima e sofre e sua. É como se lapidássemos onomatopéias.
Felizmente a massa falhou ao permitir um rico contato entre mim e algumas matérias da sombra, que estavam justamente à paisana. Sem atinar absorvi elementos alternativos. Agora enxergo de forma opaca e realizo uma leitura pretensiosa do cenário musical.
A Antigüidade Clássica assuntada de ponta cabeça. Analisar Roma (música eletrônica de qualidade) e somente depois a Grécia (minha ignorância musical). Paul Veyne ficaria orgulhoso. O mais interessante foi a naturalidade do processo - a mais pura gradação.
A partir do momento que nossas cápsulas não possuem mais valor, questionamos a massa. Sou da massa e tal condição me torna infeliz. Paradoxo do capitalismo. Hans sabe que ao apertar o botãozinho vermelho, eles morrerão intoxicados. Eles não têm culpa. Hans aperta o botão e judeus morrem. Porém, se a cápsula de Hans o incomodasse, ele poderia encontrar inúmeras saídas, como tentar fugir da Alemanha nazista.
Como eu posso me levantar da confortável cadeira capitalista, situada na borda do gigantesco mosaico uniforme? Alguns prepotentes pensam que estão de pé ou que saíram da massa. Tolos. Essa ilusão me enoja. Mesmo quando eu conseguir manipular ferramentas de real conscientização, eu ainda estarei na Idade da Pedra. Sou índio e não quero ser catequizado. Sou índio e não quero ser dizimado. Sou índio e não quero ser aculturado. Sou índio e não quero ser massificado.
*Escrito dia 20 de julho de 2004. Muita água caindo do céu. Muitas idéias foram regadas.