Wednesday, April 27, 2005

Geisteswissenschaft

A minha relação com as ciências exatas sempre foi pertubadora.
Meu raciocínio humanóide nunca permitiu uma cosmovisão geométrica do mundo. Sempre me senti analfabeto ao tentar decifrar a linguagem universal. A matemática nunca me seduziu. Passava reto. Esnobava.
Já a física foi ficando mais atraente ao longo dos anos. Comecei a desviar meus olhos, seguindo vetorialmente a teoria e me apaixonando escalarmente. Meu referencial mudou. Mas a física me abandonou. Sou desprezível em seus problemas.
A química sempre foi minha companheira. Eu adorava passar horas tentando entendê-la. Ficava muito enciumado quando ela reagia com a matemática, mas logo me encantava com sua complexidade convencional e suas analogias abstratas. Brincar com bolinhas de laboratório para montar terríveis seres míticos com as esferas que compõe as colossais cadeias carbônicas era a energia de ativação necessária para minha imaginação transgredir. A química não quer saber de mim. Evaporou da minha vida.
Naturalmente, quem ficou foi a matemática. Essa não sai do meu pé.
Hoje eu tive aula de Metamathematik ou Übermathematik. Filosofando através de axiomas matemáticos comecei a cogitar uma branda aproximação. Porém isso fica no intervalo entre mim e ti.
Nosso conjunto ainda é vazio.

Tuesday, April 26, 2005

Auto-ajuda catastrófica

Um dia o Sol e a Lua colidiram. Não sei que horas eram.
Uma tempestade iluminada por relâmpagos irrompeu espontâneamente, acompanhada por nevascas e pequenas faíscas incandescentes. Era o fim? O que fazer? Comecei a correr descompassadamente, estimulando pensamentos aleatórios.
A distância entre o bem-estar e o mal-estar é minúscula. Às vezes parecem um estado só, fundido. Tudo pode mudar a qualquer instante. Cada circunstância deforma os sentimentos ao invés de moldá-los. A desnaturação sentimental é irreversível. Algumas de nossas relações não são danificadas por essa imprevisível metamorfose dos sentimentos. Elas têm o talento de admitir e lapidar arbitrariamente qualquer mudança inerente de nossa parte. Com efeito, apenas algumas relações são capazes disso.
Não pisquemos jamais. Qual é a sua realidade neste exato momento? Talvez a fusão do Astro com o satélite da Terra tenha alguma coisa a ver com isso: eles não estão tão distantes em escala universal. [O chão começou a chacoalhar]. Parei de me movimentar e contemplei o céu extraordinário. [Uma inusitada aurora-boreal listrada por incontáveis arco-íris aconchegou-se na esfera celeste].
Não importa qual fusão seja, sempre atinge alguém, sempre atinge alguéns. Nosso planeta mantinha a noite e o dia gregorianamente separados. Somos cúmplices. De vez em quando o mundo precisa acabar para nós justificarmos nossa inaptidão de conviver em sociedade. O mundo está aí...
Segunda-feira, vinte e oito de junho de dois mil e quatro, dezessete horas e dezesseis minutos.

Wednesday, April 20, 2005

Pop tart hurts.

"E o principezinho deu uma bela risada, que me irritou profundamente. Gosto que levem a sério as minhas desgraças."

Reflexão incomum

Entrei no banheiro com ar de debandagem. Minha bexiga implorava pelo escoamento em caráter de urgência. Antes de realizar tal tarefa aliviante, meus olhos esbarraram de relance no espelho. Sem perder tempo, este os encarou. Fiz uma careta. Meu reflexo, sem hesitar, arremedou uma cara monstruosa. Eu fiquei muito invocado e me aproximei daquele objeto singular do meu lavatório. Fixamos a visão odiosamente. Eu não me assustava, porém suas constantes chacotas mescladas com uma indiferença absoluta estavam me solicitando sete anos de azar.
- Eu conheço exatamente cada contorno do seu raciocínio - começou o aparelho óptico.
- Ah é? Pensava que sua mísera função era reproduzir miméticamente as coisas - provoquei.
- É verdade. Essa é minha mísera função. - conformou-se e continuou - Mas tenho a capacidade de ver sua consciência - disse ele com um tom perturbador.
- O que eu estou pensando agora? - desafiei maliciosamente.
- Você está com raiva de morar numa avenida de mão única. - respondeu.
- ... - fiquei sem palavras - Mas por que? - tentei complicar.
- As leis de trânsito lhe obrigaram a fazer uma volta enorme, pegar um congestionamento insuportável, até você conseguir pisar em casa. - descomplicou e acrescentou - E você estava apertado o caminho todo.
Dei um passo para trás, afastando-me de mim mesmo. Bati a batata da perna na privada e lembrei da minha bexiga. Já assustado, me virei, abri o zíper da calça e mirei no vaso. Não consegui fazer xixi. Não estava sozinho no banheiro. Procurei disfarçar, me espiar no espelho, ver se ele distraía. Não adiantava. Fechei o zíper repentinamente, me virei para o chuveiro e liguei a água quente no máximo. O banheiro logo se transformou num universo nebuloso e hostil. Eu anestesiei o espelho com vapor de água condensado. Urinei. Após o alívio orgásmico, desliguei o chuveiro. Sem demorar, o efeito anestésico iria expirar e minha imagem inconveniente desembaçaria. Minhas metáforas mais herméticas estavam sendo lapidadas por mim mesmo. Não queria saber mais. Saí do banheiro e bati a porta, evitando que a névoa vazasse para fora. Queria lacrá-la.
Me dei conta de quem era superficial. Eu.
Segunda-feira, sete de junho de 2004 (cinco e quatro da tarde)

Tuesday, April 19, 2005

"Castelo de areia cor de neve."

(três)
" Três crianças foram encontradas mortas na cama de casal de um pequeno hotel litorâneo abandonado. As duas garotinhas e o menino estavam pelados. Até agora a perícia não obteve nenhuma pista satisfatória que pudesse guiá-los à solução do intrigante caso. "


(3)

Estavam brincando juntos apenas na praia, pois naquele mês a água fica insuportavelmente gelada. Os flocos de neve pareciam não combinar com os grãos de areia. O trio emporcalhado, liderado pelo gordinho que ostentava sua idade superior, subiu as escadas do hotel para tomar banho. Seu Atílio já tinha avisado os traquinas que o quarto 76 não devia ser utilizado. Apesar do estabelecimento estar desértico e conseqüentemente todos os outros aposentos estarem livres, as crianças ignoraram o aviso do velho caseiro e foram se banhar no quarto proibido. Entraram e trancaram a pesada porta. Seus universos puros não possuíam malícia em relação às suas vergonhas. Despiram-se e jogaram suas roupas levemente úmidas de suor no chão. Resolveram pular na cama antes de entrar na água do chuveiro, que parecia mais agressiva que a do mar. Os peraltas esmagavam o lençol amarelado da grande cama e o temperavam com areia. A caçula, excluída do grupo, apoiou-se ocultamente sobre a calefação, enquanto o garoto obeso e sua amiga magrela monopolizavam e destruíam a mola do colchão com saltos ornamentais. Surpreendentemente, a mão da pequenina não queimou com o ferro fervente do aparelho de aquecimento antigo. Quem chegasse por último no banheiro era a mulher do sapo. Ensoparam-se. Gargalhavam e gritavam ao pintar o sete. A água feria de tão gelada. A tríplice foi se secar, mas não havia toalhas. Somente uma cama de casal enfeitava o dormitório 76. Frio. Após o êxtase, os serelepes lembraram do seu Atílio. Correram para a porta. Destrancaram-na, porém não a conseguiam abrir. A mais nova começou a chorar. A do meio secava-se com o velho lençol e se machucava com o atrito da areia em seu corpo. O mais velho tentava fechar a janela, que também estava teimosamente emperrada. Parecia uma reunião fantasmagórica: a pele deles embranquecia cada vez mais, com exceção dos lábios roxos. Berravam o nome do caseiro. Abraçaram-se. O corpo rugoso da garota, que secou-se com a roupa de cama, incomodava a gordura do menino. As lágrimas escorriam pelo corpo deles e esfriavam-no. Concluíram que as roupas úmidas somadas com o lençol molhado não seriam uma calorosa solução. A caçula ficou sonolenta. Na verdade os três foram chamados para o mundo onírico. Deitaram na cama. Choro e sono. O último os acompanhou até a morte. Aos poucos o quarto, assim como a carne das crianças, tornava-se branco. Ao entrar pela janela, a neve perfazia um tapete. Macio e mortal. O trio jazia delicadamente até o caseiro perceber, muitas horas depois, que os pestinhas tinham sumido. Ao encontrá-los, o velhinho sorriu. O aviso fora dado previamente. Retirou o cadeado da trava externa da porta do quarto 76 e guardou no bolso. Continuava sorrindo. O sovino os puniu. Desceu as escadas e andara com dificuldade até o mar. Sem despir-se, mergulhou e nadou em direção ao horizonte. Sorrindo. A hipotermia não teve tempo de vingar a morte das crianças. A grande quantidade de roupa que o idoso trajava mais o inconveniente cadeado, facilitaram o seu afogamento. O corpo do seu Átilio nunca foi achado.


Quarta-feira, dois de junho de 2004 (três e quinze da manhã)

Monday, April 18, 2005

widerborstig:

Adj; 1 nur schwer glatt zu machen 2 nicht folgsam

To rub the wrong way.

"Todo aquele que contesta a autoridade e luta contra ela é um anarquista." Sebastien Faure

Sunday, April 17, 2005

Pop tart loves you.

Oh no! A boa constrictor ate my feelings. (don´t worry sweety pie: it´s just a hat...)